Páginas

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

ERIC CLAPTON: O CÉU E O INFERNO DE UM DEUS DA GUITARRA




Eric Clapton e o filho Conor, morto num trágico acidente aos quatro anos

Não sei se foi a primeira. Mas com certeza foi a mais emblemática vez que ouvi falar do cantor, compositor e guitarrista inglês Eric Clapton. Era o ano de 1991, matéria especial do Fantástico sobre o lançamento da melancólica música Tears in heaven, faixa carro chefe do disco acústico que ele acabava de gravar. Angelical, a canção era uma homenagem ao pequeno filho Conor de quatro anos, morto naquele ano após cair do quinto andar do prédio onde morava com a mãe italiana Lori, em Nova York.

“Unplugged foi o álbum de maior vendagem da minha carreira. Foi também o mais barato de produzir e o que exigiu o menor volume de preparação e trabalho. Mas, se você quer saber, quanto de fato me custou, vá a Ripley e visite o túmulo do meu filho”, desabafou o artista em sua autobiografia publicada em 2007.

O livro, lançado pela editora Planeta, estava já um tempinho escondido ali na minha estante, ao lado da biografia do Kurt Cobain. Não sei por que demorei tanto tempo para comprar essa autobiografia – que achei baratinho e bem conservado no Sebinho -, e mais ainda para ler. Só sei que li rapidinho essa semana e achei formidável, sobretudo pela franqueza com que Mr. Clapton fala de assuntos caros a ele como, não apenas a morte do filho, mas também o envolvimento pesado com as drogas e bebidas, além da paquera descarada em cima da mulher de seu melhor amigo, o ex-beatle George Harrison.

Adoro ler biografias. Mas as melhores são aquelas em que os próprios personagens contam suas peripécias. Keith Richards narrando sua trajetória pregressa e vitoriosa em Vida é um sundae. Se você não leu ainda corra agora para livraria mais próxima de sua casa.

Nascido em março de 1945, na pequena cidade de Ripley, Surrey, na Inglaterra, Eric Clapton não conheceu o pai e a mãe sempre foi uma figura ausente em sua vida. De modo que foi um baque saber que as pessoas que durante muito tempo ele acreditava ser seus pais, na verdade eram seus avôs maternos. “Quando meu tio Adrian me chamava brincando de pequeno bastardo, ele estava falando a verdade”, ironiza.


Clapton (direita) à frente do Cream, na época em que era chamado de Deus

Esse olhar ironicamente debochado e, às vezes, rancoroso irá nortear toda a narrativa de Clapton que presenteia os fãs com detalhes espantosos sobre a origem da formação dos Yardbirds – banda que também seria integrada por Jimmy Page e Jeff Beck –, a relação de amor e ódio com o bluesman John Mayall e o reconhecimento à frente do power trio Cream, como o nome já diz, aquela altura a nata do bluesrock.
Sua habilidade e talento com a guitarra, assim como o amor desenfreado pelo ritmo que consagrou ídolos como Muddy Waters e B.B. King, fariam com que as pessoas saíssem pelas ruas de Londres pinchado a mítica frase: “Clapton é Deus”. “Fiquei um pouco aturdido, (…) mas outra parte de mim gostou da ideia porque era algum tipo de reconhecimento”, confessa.

Mas é o mergulho vertical nas drogas e bebidas, na década de 70, o ponto alto dessa autobiografia. Isso porque Eric Clapton, como numa espécie de expurgo do inconsciente, transforma essa jornada ao inferno uma mea culpa repleta de ensinamentos morais e filosóficos, fazendo valer a cínica frase do dramaturgo e escritor irlandês Oscar Wilde: “Cada um de nós carrega dentro de si o céu e o inferno”.

* Este texto foi escrito ao som de: Fresh cream e Disraeli gears (Cream – 1966/1967)

Seguidores