Páginas

sábado, 2 de fevereiro de 2013

A MORTE NOS FAZ PENSAR NA VIDA:


A morte nos faz pensar na vida 

A morte nos faz pensar na vida


:: Bel Cesar :: 
Uma vez estava muito aborrecida com algo que tinha ocorrido e não sabia ainda o que fazer e como me posicionar. Sem saber por quê, abri a porta da geladeira como quem busca uma solução. Naquele momento surgiu em minha mente a seguinte pergunta: Por que estou me desgastando com isso? Isso não tem importância. O que realmente importa é cuidar de meu medo da morte. Esse pensamento atenuou a minha irritação e redimensionou meu problema. Apesar de ainda não ter uma solução, já não tinha, pelo menos, a mesma pressão tão desagradável sobre mim.

A morte nos faz pensar na vida. Se dermos um significado à nossa morte, encontraremos uma nova perspectiva para nossa existência. Aprendi isso em 1988, a partir de uma intensa experiência pessoal que me levou a refletir profundamente sobre minha mortalidade. Já havia encontrado meu mestre budista Lama Gangchen Rinpoche há um ano. E naquele momento, ao experimentar uma profunda solidão, tomei uma decisão que deu um novo rumo à minha vida: superar a resistência de lidar com a minha própria mortalidade e ajudar os outros a se sentirem menos solitários frente à morte.

Em julho de 1991, três anos após aquele período de crise e já formada em Psicologia, participei de uma grande cerimônia budista na Califórnia, onde conheci o mestre budista tibetano Lama Zopa. Apesar de ele não saber sobre minhas intenções secretas de trabalhar com pacientes que enfrentam a morte, quando nos despedimos ele me ofereceu duas pílulas abençoadas, com as seguintes instruções: Quando você estiver ao lado de alguém que acabou de morrer, coloque essas pílulas dissolvidas num creme no topo da cabeça dessa pessoa e dê três puxões de cabelo. Assim, ela terá um bom renascimento.

Fiquei muda. Naquele instante surgiram muitas perguntas em minha mente. Como naquela época eu nem tinha idéia do que ocorreria no momento da morte sob a perspectiva budista, entendi apenas que esse procedimento talvez levasse a mente da pessoa a deixar o corpo de maneira mais auspiciosa. Voltei para o Brasil e contei aos meus amigos sobre essas pílulas. Poucas semanas depois, o pai de uma amiga faleceu, e ela, lembrando do que eu havia lhe contado, me chamou para colocar as pílulas sobre a cabeça de seu pai.

Ao colocá-las, recitei alguns mantras. Senti como era importante estar fazendo aquilo e o quanto a família ficou agradecida. No ano seguinte, comecei a acompanhar pacientes que enfrentavam sua fase final de vida. Mas hoje reconheço que esse meu trabalho começou com a crise de solidão e essas duas pequenas pílulas.

Além do impacto da idéia que projetamos de nossa morte tem sobre nós mesmos, também o impacto de mortes que testemunhamos tem um grande efeito sobre nossa vida. Foi o fato de testemunhar uma morte que levou o Príncipe Siddharta, o Buddha histórico, a abandonar o palácio no qual vivia, para dedicar-se à meditação em busca de uma solução efetiva para a cessação do sofrimento humano.

O mesmo acontece com aqueles que testemunharam o processo de uma morte e que se deixaram tocar pelos poderosos efeitos dessa experiência sobre sua visão de mundo. Assistir alguém morrendo nos torna conscientes de nossos limites humanos e nos leva a ser mais realistas e menos pretensiosos quanto às nossas possibilidades. Mesmo assim, não podemos nos esquecer de que mesmo encarando a morte de maneira positiva, ela continua feia e dura de se olhar.

Diz Lama Gangchen Rimpoche: Se você estiver numa situação negativa no momento de sua morte, deve recordar-se que a negatividade não traz nada. Por isso, volte a atenção para sua concentração interna e para sua autoconfiança. Acredito que essa seja uma tarefa para uma vida inteira.

Trecho extraído da Introdução do livro Morrer não se improvisa de Bel Cesar, (Ed.Gaia). 

Seguidores