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domingo, 15 de julho de 2012

A MORTE NÃO EXISTE...


A morte não existe

A casa estava em confusão, todos corriam e choravam.
Os telefones celulares tocavam sem parar e aqueles cujas campainhas eram festivas ficavam funestos nesse dia.
Era madrugada quando o telefone tocou, e Inês foi atender com muita má vontade, pensando consigo mesma, sempre que ligam nesse horário é engano ou então algum moleque falando bobagens.
E ao atender uma voz masculina se identificou como sendo o tenente Joaquim, da delegacia de policia daquele distrito e pedindo para falar com o responsável pela casa.
Inês disse que ela era a responsável pela casa, pois seu marido estava…viajando.
Assim que começou a falar suas perdas bambearam, e se deu conta que algo tinha acontecido com Edson, seu marido.
O tenente Joaquim cauteloso informou que um acidente na auto estrada tinha como um dos envolvidos o senhor Edson e que precisavam que os parentes comparecem no hospital da cidade com urgência.
A mulher não conseguia falar direito só perguntou se o marido estava vivo.
A resposta foi ambígua mas, ela não percebeu.
Saiu correndo para acordar os filhos, que tinham chegado há poucas horas de uma festa de formatura de colegas.
–Acordem meninos, precisamos ir ao hospital, o Edson sofreu um acidente.
Os rapazes pularam da cama e se arrumaram as pressas.
O mais velho foi dirigindo, Antonio o seu nome. O outro foi no banco de trás deixando a mãe na frente com o motorista. Essa foi a primeira vez que não brigaram para decidir quem dirigia ou quem iria atrás no carro.
Os três seguiam com seus corações apertados, calados não querendo conversar, como se um medo lhes tomasse.
No saguão do hospital outros familiares também estavam tentando obter informações de seus parentes, pois, o acidente era de grande monta, muitos feridos graves e muitas mortes.
Dois ônibus colidiram de frente e com o impacto, muitos carros que estavan atrás em ambos os lados também sofreram com a inércia repentina.
Aqueles que já conseguiam noticias se afastavam do balcão desolados ou festivos. Uma cena bizarra até certo ponto, porque o alívio que se tem quando a noticia e positiva não invalida que outros seres humanos não tiveram a mesma sorte.
Uma reação comedida é algo que ainda precisamos aprender.
Quando Inês recebeu a informação, desmaiou ali mesmo e foi amparada pelos filhos. Ângelo era mais forte que Antonio, e tomou a mãe nos braços e a levou para uma sala contígua para onde um médico os encaminhou imediatamente.
Ângelo ficou com a mãe e Antonio foi reconhecer o corpo do pai que embora tivesse passado por cirurgia não resistira.
Enquanto ele seguia o funcionário do hospital, seu pensamento voltou três dias atrás quando seu pai viajou para uma cidade próximo como fazia todos os meses, pois era representante comercial de uma grande companhia frigorífica.
Se lembrou tão nitidamente do que acontecera na mesa do café da manhã, que sua boca amargou na hora.
O pai estava pronto para sair e tomava café com a família como era de costume. Edson era um homem bom, bom pai e marido. A única queixa que Antonio faria de sua pessoa era que ele se sentia insubstituível. Fazia questão de dizer que se ele faltasse a casa ruiria. Que ninguém ali tinha condições de viver sem a presença dele.
E foi o que ele falou nas ultimas horas em casa.
–Rezem para que eu não morra tão cedo, porque vocês vão morrer de fome se eu faltar.
Antonio sentiu uma angustia muito grande e uma revolta surda se instalou em sua alma. Sentiu medo de que o pai estivesse certo. De repente teve a impressão que não saberia o que fazer de sua vida e como seria com sua mãe tão apegada ao marido. E Ângelo então, que era o queridinho.
Quando ele reconheceu que era seu pai, uma lagrima rolou pela sua face, e o rapaz que o acompanhara, bateu em seu ombro em solidariedade.
Inês entrou em desespero e começou a gritar, fazendo com que muitas pessoas viessem para olhar o que acontecia.
Ela repetia que não conseguiria mais viver sem o amparo de Edson, que preferia morrer também.
Chegou um momento que foi preciso sedá-la para que não se machucasse.
Novamente Ângelo ficou e Antonio foi cuidar da papelada. Estava se sentindo mal também não deixou que o irmão percebesse. Tinha arrepios e o estomago em revolta.
Ângelo, depois que a mãe dormiu, se sentou na poltrona que havia no quarto, e começou a pensar no pai.
Parecia que sonhava, ou antes estivesse tendo um pesadelo. Seu pai morto era algo que nunca lhe passou pela cabeça. Ele também se recordou de três dias atrás e das palavras do pai. Mas sua reação foi diferente da reação de Antonio.
Ele sorriu e pensou, (meu pai querido, seu pedido não foi atendido, e voce partiu, nos deixando para lhe provar que estava errado, infelizmente o destino é algo que não podemos mudar).
Depois fechou os olhos e fez uma prece sentida em honra daquele homem que sempre foi correto e digno:
–Meu Deus, senhor de nossas vidas, abençoa meu pai onde quer que ele esteja agora, envia seus anjos para conduzi-lo por uma estrada luminosa e de paz. Possa ele encontrar seus afetos o mais rápido e que não se sinta só em nenhum momento.
–Peço ainda à Jesus que toque o coração do meu querido pai para que ele não se revolte com sua condição de agora, se puder que ele seja recebido por Sônia, minha noiva tão amada que também vive na espiritualidade.
Ângelo sentiu uma calma segura, e ficou ali até que o irmão voltasse.
Depois quando a mãe acordou foram para casa, para descansarem um pouco enquanto o corpo de Edson seguia para a capela onde seria velado até a tarde, tempo suficiente para chegarem alguns parentes que moravam em outras cidades.
A família não era muito grande e com meia dúzia de telefonemas Antonio avisou todos do acontecimento e da perda que tiveram.
As sete horas da manhã todos estavam prontos para sair, e como já sabemos a confusão era geral na casa. Alguns parentes que moravam na mesma cidade ligam para saber o endereço de onde seria o velório. Os que moravam em outras cidades queriam uma referência para chegarem antes do enterro.
Tanto Antonio quanto Ângelo, explicavam como chegar ao local. E ao mesmo tempo vigiavam Inês que inconsolável, não queria aceitar a fatalidade.
Enfim conseguiram chegar e velar o pai. Foram horas intermináveis, antes do enterro, que se deu em minutos. Também é estranha essa sensação de tempo que carregamos em nós.
Inês entrou em crise logo que o marido foi enterrado e necessitou de cuidados médicos, ficando internada em observação. O medico que a atendeu considerou que ela estava a beira de um colapso nervoso.
Os filhos seguiram para casa, sozinhos.
Uma vez em casa, seguiu cada um para seu quarto e não conversaram até a hora de irem ver a mãe e saber se receberia alta.
Antonio ligou para o hospital para saber se deveria levar alguma roupa e objetos de higiene pessoal. Recebeu a informação que sim, deveria levar, porque Inês ficaria internada mais alguns dias.
Ângelo escolheu o que levar.
Enquanto estavam a caminho, Antonio fez um grande esforço para conversar e iniciou com uma pergunta que nunca fizera ao irmão.
–Como é perder uma pessoa querida?
–Temos a sensação que perdemos o braço direito, no primeiro momento. Depois temos a sensação que nós é que morremos. E essa sensação é a que dura mais. Com o tempo começamos a ver a pessoa nos rostos das outras pessoas, até que um dia entendemos que é só a nossa vontade que projeta a imagem, porque intimamente sabemos que não veremos aquele rosto nunca mais.
–Como voce suporta, Ângelo?
–Não suporto, Antonio, eu entendo.
–Entende que nunca mais vai ver e conviver com Sônia?
–Não, eu entendo que a morte não existe.
–A morte não existe, gostaria de aceitar essa mentira também. Mas a cada minuto me dou conta que nosso pai é que não existe mais.
–Ele existe sim, só não podemos vê-lo, mas podemos ter certeza que ele existe sim. Assim como Sônia também existe.
–Então é por isso que desde a morte dela, voce nunca mais se aproximou de outra mulher?
–Não Antonio, não é por isso não. Apenas não encontrei uma mulher que me agradasse o suficiente. Inclusive Sônia já me falou que está na hora de arrumar uma companhia para mim.
–Como é? Sônia disse que voce deve arrumar outra mulher? E quando foi isso, ela sabia que morreria?
–Claro que não, ela me fala isso agora.
–Ângelo voce me preocupa. Sua calma com tudo isso é enervante.
Nessa altura da conversação, chegaram ao hospital.
Na recepção chamaram Antonio para conversar, e Ângelo foi ver a mãe.
O que viu quando entrou no quarto foi constrangedor. Inês se debatia e chamava por Edson em altos brados. Os enfermeiros já não sabiam mais como agir, nem os remédios para acalmá-la estavam fazendo efeito.
Ângelo pediu para ficar só com ela. A enfermeira chefe achou que não devia, mas ele insistiu com tanto carisma que ela cedeu.
Quanto saíram todos, ele se sentou na cama e chamou a atenção da mãe.
–Mãe que papelão é esse?
–Está se demonstrando indigna do marido que tem. Saiba que ele onde estiver deve estar se sentindo péssimo.
–Como voce tem coragem de falar assim, meu filho?
–Seu pai era um homem de ouro, e teve uma morte horrível, tudo pelo que sonhou não conseguiu usufruir. Morreu há meses de se aposentar, e havia feito planos de viajarmos.
–Ele desapareceu sem deixar rastro e voce me diz que ele se sente péssimo. Que absurdo é esse Ângelo. Voce está falando como falam aqueles loucos que dizem que os mortos vivem.
–Mãe….os mortos, vivem eu garanto.
–Não me diga que voce está misturado com essa gente. Não admito Ângelo. Filho meu não sai do caminho de Deus, nunca.
Ângelo não conseguiria explicar para mãe todos os meandros da vida e da morte. Mas pelo menos agora ela não estava mais naquela fluxo de desespero.
Ele havia revelado que descobrira outra forma de ver a morte. E ela agora se preocupava com o que ele andava fazendo.
Não foi uma vitória propriamente dita, mas ele considerou uma trégua na auto flagelação que ela estava fazendo.
Antonio entrou no quarto e abraçou a mãe.
Ela logo começou a reclamar de Ângelo para Antonio, dizendo que ele estava freqüentado aquelas casas de encostos que tanto o pastor Jaime combatia.
E de chofre perguntou a ele se já sabia dessa novidade.
Antonio sabia que o irmão freqüentava um centro espírita, mas, não revelou.
Disse apenas para a mãe que Ângelo era uma pessoa equilibrada que tinha certeza que ele não se prestaria a coisas inadequadas.
Mas…
Só quem convive com uma situação assim, pode saber, o que advém de uma descoberta destas.
Mas como se diz que tudo esta certo. Então também estava certo Inês descobrir que o filho era espírita e não mais evangélico como sempre fora, desde criança.
Inês sarou rapidamente.
Agora tinha uma cruzada pela frente, trazer Ângelo para o caminho da igreja, salva-lo das garras desse povo que pactua com…ela se recusa a pensar mais.
Antonio não se envolve na briga dos dois, e só admira a calma com que Ângelo pondera com a mãe. E como depois de ela lhe ofender de todos os modos, ele lhe toma nos braços e dança com ela pela sala, enquanto canta a musica “Fascinação”, que ela adora.
Inês esperneia, bate no peito dele com os punhos, mas depois acaba lhe abraçando e pedindo que ele abandone esse caminho que não é o caminho de Deus.
Ângelo, nunca diz que sim, nem diz que não…
Os dias passam, os meses também e Antonio sente-se mal cada vez mais. Não dorme, sonha com o pai o tempo todo. Ouve ele lhe dizendo que vão morrer de fome e tudo aquilo que ele sempre falava.
No trabalho o rendimento do rapaz decai visivelmente e sua chefia lhe aconselha a tirar férias para que não se prejudique na avaliação trimestral.
Ele aceita e no primeiro dia em casa, nota que Ângelo vai sair e pergunta se pode ir junto.
Ângelo fica muito sem graça e acaba dizendo que tem um encontro.
Antonio se assusta e quer saber com quem.
–Lembra a enfermeira que cuidou da mamãe nos dias em que ela ficou internada, a enfermeira chefe?
–Sim lembro, acho que se chama Vera, não é?
–Sim é. Pois então estamos saindo.
–Que bom Ângelo. Agora me diga aqui como é que fica Sônia nessa?
–O que tem a ver uma coisa com a outra?
–Se a morte não existe, Sônia sabe que voce tem uma namorada?
–Sabe sim, e dá o maior apoio.
–Isso é de doido não é?
–Não é não Antonio. Alias eu tenho notado que voce não anda bem desde a morte de papai. Deveria ir tomar um passe o quanto antes.
–Há tempos que quero lhe convidar para ir comigo mas fico pensando quando a mamãe souber que perdeu nos dois, pode ter uma crise.
–Voce acha mesmo que eu tomar passe, é assim que fala?
–Vai me ajudar a melhor desse estresse que estou sentindo?
–Tenho certeza, até porque sei que não é nada de estresse que voce tem.
Ângelo saiu, Antonio ficou com um pensamento sobre o que ouvira.
Lembrou de quando Sônia faleceu em menos de quatro meses de uma doença que lhe acometeu de repente.
Nos primeiros dias Ângelo deu mostras de que enlouqueceria depois ele foi se acalmando.
E com o passar do tempo seus modos mudaram, ele ficou seguro, com um olhar sereno suas palavras sempre doces, sempre de incentivo ou de concórdia.
Não freqüentou mais a igreja, mas participava das campanhas de arrecadação de roupas e alimentos para os pobres. Visitava junto com os pais e o irmão as famílias necessitadas.
E quando faziam orações, ele orava baixo. Quando o pai requisitava que ele fizesse o louvor ele o fazia com brandura, e quanto terminava não havia uma pessoa presente que não estivesse emocionada.
Todos o tinham como alguém dotado de dons e que seria um grande pescador de almas quando resolvesse assumir um cargo no ministério.
Por enquanto não forçavam, permitiam que ele buscasse o mundo, para conhecer o que era oferecido, porque assim quando voltasse para “casa”, não correria risco de desviar.
Assim ele se afastou e não foram em seu resgate imediato.
Uma tristeza imensa tomou conta do coração de Antonio e ele desejou ter a paz que Ângelo tinha.
Resolveu que iria com ele tomar o tal “passe”.
Inês chegou de mansinho e ficou olhando o filho que com o olhar perdido não sentiu sua presença. Ela estava preocupada com ele. Seu coração de mãe dizia que ele não estava bem.
Sempre foi mais arredio e calado. Mas depois da morte do pai ele estava abatido, parecia doente e chorava a toa.
Como ele estava absorto em sabe-se lá o que, ela foi para a cozinha preparar um lanche, pois, as irmãs da congregação das senhoras fariam uma visita logo mais a noite.
Quando entrou na cozinha e pegou o avental, levou um susto.
Viu Edson encostado na geladeira.
Por um segundo ela esqueceu que ele havia morrido e disse:
–Edson que susto voce me deu. Quando chegou?
Para em seguida sentir um medo que doía na alma.
Olhou novamente e ele havia sumido.
A noite contou para as irmãs o que aconteceu e elas fizeram uma oração.
Inês ficou calma e tirou da cabeça aquela alucinação.
Só que o que ela não viu foi que Edson saiu da cozinha e foi para o quarto de Antonio, se sentado na cama e lá ficando, chorando por horas a fio.
Os irmãos combinaram e na terça feira Antonio iria ao centro para receber o passe.
Se encontraram na porta da casa espírita, e Ângelo apresentou Antonio para Gertrudes que era dirigente de um grupo de médiuns que se reunia nas quartas feiras.
Gertrudes olhou para Antonio e viu também Edson.
Ângelo que estava só na espera de uma confirmação, entendeu quando ela olhou para ele dizendo:
–Deixe seu irmão comigo que cuidaremos deles.
Antonio não notou a referência a “cuidaremos deles”.
Entrou com ela para uma sala onde diversas pessoas estavam sendo atendidas individualmente por atendentes que escreviam suas conversas.
Eles se acomodaram numa mesa no fundo e Gertrudes anotou os dados pessoais do rapaz, depois indagou como ele estava dormindo, se alimentando e se sentia vontade chorar constantemente.
Antonio ficou impressionado porque ela tocou nos pontos certos, ele não dormia direito e sonhava com o pai já morto, não conseguia se alimentar bem porque estava sempre com ânsia e dor de estomago, e por fim estava chorando mais que uma gestante.
Ela comentou sobre as companhias espirituais que as vezes se aproximam de nós por sintonias e que acabam nos causando mal estares e foi comedida em falar de Edson que também ouvia tudo aquilo visivelmente interessado.
De repente Antonio sentiu tontura e sentiu como se alguem falasse em seu cérebro. Ele relatou isso a Gertrudes e ela pediu que ele contasse o que estava ouvindo.
Era Edson que não sabia o que deveria fazer, porque não conseguia entender o que acontecia com a família que não lhe dava atenção como se não lhe ouvissem.
Gertrudes com tato e tranqüilidade pediu a Edson que ficasse aguardando ali do lado, que viria uma pessoa especialmente para lhe atender. Que ele tivesse confiança que tudo seria esclarecido.
Antonio voltou ao norma, mas não se lembrava do que tinha falado.
Então Gertrudes indicou a ele um tratamento espiritual de quatro semanas, a base: ouvir uma palestra semanalmente, tomar passe e tomar água fluidificada. Disse que não se preocupasse que Ângelo conhecia toda essa rotina.
Nesse mesmo dia ele ouviu sua primeira palestra na casa espírita e o tema era por incrível que pareça:
A MORTE NÃO EXISTE.
Tudo que ouviu lhe fez um grande bem. Parecia que um mundo novo ele havia encontrado e então entendeu a transformação que se operou em Ângelo.
Quando estava esperando pelo irmão na porta de saída, Gertrudes veio com um sorriso largo e lhe pegou pelo braço dizendo:
–Ângelo vai demorar mais uma meia hora então voce será de minha responsabilidade até que ele se libere.
–Venha temos hoje uma confraternização de uma colega nossa que faz aniversário, voce gosta de boldo de chocolate?
–Adoro.
E lá foram para um pavilhão lateral, onde uma cozinha grande e cheia de mesas estavam algumas pessoas em comemoração.
Quando viram os dois entrando se viraram e saudaram Gertrudes e seu companheiro.
Ela apresentou Antonio e disse que era a primeira vez que ele vinha ao centro e que era irmão de Ângelo. Então ele pôde sentir o quanto Ângelo era querido também ali naquele lugar.
Foram para casa conversando os três. Os três porque como Gertrudes morava bem próxima da casa deles Ângelo lhe dava carona todas as semanas.
Deixaram a moça e seguiram. Ângelo notou que houve uma sintonia fina entre Gertrudes e Antonio e não deixaria passar sem dar uma alfinetada.
–Quer dizer que meu irmãozinho ficou de olho na minha amiga espírita?
Antonio deu uma risada descontraída e confirmou.
–Nossa, deu para notar?
–Gostei muito dela sim.
–Então já tem um bom motivo para fazer o tratamento não é?
Antonio amanheceu a quarta feira cantando e sentindo vontade de se cuidar. Já que estava de férias resolveu cortar o cabelo e comprar algumas roupas.
Convidou Inês para ir com ele e ela ficou feliz da vida de ver o filho contente e bem disposto.
Quando voltaram para casa e estavam almoçando ela perguntou;
–Voce também foi naquele lugar?
Antonio gelou. Evitou olhar a mãe.
Naquela noite, no grupo mediúnico Edson foi orientado de sua condição e um pouco relutante, ficou na casa para receber mais esclarecimentos e depois decidir se preferia ser encaminhado para um lugar onde pudesse se reestruturar ou se preferia seguir seu caminho.
Inês não exigiu que Antonio respondesse, não havia necessidade.
Ela chorou durante a noite, porque sentia que havia perdido toda a sua família. O marido para a morte, e os filhos para o demônio.
Deixou que o tempo se encarregasse de mostrar a eles que estavam errados. Enquanto isso fazia uma campanha de oração diariamente em prol dos meninos, para que fossem resgatados.
A espiritualidade se utiliza de mecanismos que nem sempre conhecemos, mas o certo é que todos somos beneficiados, tanto, espíritas, católicos, evangélicos,ateus, e etc…
Assim Inês à medida que se devotada aos filhos, se iluminava e podia receber um amparo maior e regular. Ela não compreendia o que lhe acontecia, mas cada vez mais se sentia feliz por ver os filhos felizes.
As vezes se perguntava por que isso acontecia, se eles estavam se perdendo e perdendo a salvação.
Depois de muito pensar resolver falar com o pastor, a quem ela respeitava muito. Sentiu vergonha de dizer que falhou, mas a salvação dos filhos valia essa humilhação.
Criou coragem e pediu para falar com ele em particular. Ele com um bom senso que poucos possuem combinou que iria tomar um café com ela no dia seguinte.
–Boa tarde Inês, fiquei contente que quisesse conversar, estava esperando esse convite.
–Pastor Jaime, me perdoe a indelicadeza, mas desde que Edson se foi eu fiquei atarantada demais e os meus meninos tem sido motivo de muita perturbação para mim, voce nem pode imaginar quanto.
–Inês, seus meninos são homens feitos, encaminhados na vida, o que poderiam fazer que lhe perturbasse dessa forma.
–Irmão Jaime, nem sei por onde começar. Para dizer a verdade estou morrendo de vergonha.
–Vergonha Inês, de me dizer que seus filhos são espíritas?
–Meu Deus, voce sabe?
–Não tenho cara.
–Fique tranqüila irmã. Ângelo falou comigo logo que encontrou o lugar que tocou seu coração e lhe deu tranqüilidade para os momentos difíceis pelos quais ele estava passando.
Inês não acreditava o que ouvia, sentia um misto de alivio e alegria e não poderia jamais explicar.
–Inês, para que voce não sofra mais, eu quero lhe contar algo que fiz logo que Ângelo me comunicou que estava freqüentando a casa espírita.
–Sim pastor, o que fez?
–Eu fui lá. Também passei pela consulta como eles chamam. Depois assisti a palestra e fui tomar o passe.
–Irmã Inês, Jesus também está naquela casa, não se preocupe.
–Como teve coragem pastor de entrar lá, foi sozinho?
–Sim, fui sozinho, ou melhor sozinho não, com Deus.
–Quando uma ovelha se desgarra, devemos ir em busca dela, e deixar o rebanho junto em segurança. Segui os preceitos de Jesus.
–Mas quando lá cheguei encontrei outro rebanho também seguro e ordeiro.
–Me entende Inês?
–Acho que sim. Por isso meu coração me diz para ficar feliz com a felicidade deles e eu não podia aceitar isso.
Assim Inês continua na sua congregação. Está mais calma e sente uma saudade de Edson, mas uma saudade sem apegos. Talvez no futuro ela tenha olhos para outro homem. Por enquanto se dedica aos filhos e a igreja, onde canta no coro de senhoras. Participa da administração do bazar e faz visitas as famílias carentes.
Os filhos se engajaram no movimento espírita, Ângelo mais adiantado no processo e Antonio se esforçando e se adaptando com muita rapidez.
Edson se dispõe sobre as duas casas, pois depois de receber orientação compreendeu que não precisa de religião para ser Cristão.
Hoje ele trabalha no grupo espiritual que atende as crianças que sofrem tanto na carne quanto no espírito. E visita sua família toda semana.
Os filhos sentem sua presença e falam com ele em pensamento. Inês por sua vez faz seus pratos favoritos no dia de sua visita mas não sabe porque fica com vontade de cozinhar como se ele ainda estivesse vivo.
Por isso hoje ele fala para as criancinhas que são retiradas da carne para o plano espiritual.
–Meus queridos filhos, hoje estamos aqui sem corpo, mas estamos mais vivos que antes, e sabem por que?
–Por que…..
– A MORTE NÃO EXISTE.
FONTE:contosdemuitospontos.wordpress.com

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