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sábado, 20 de junho de 2015

REENCARNAÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS E CIENTÍFICOS




Reencarnação: aspectos históricos e científicos


Reencarnar é tornar à vida física, renascer em outro corpo. Essa é a ideia central de diversas doutrinas religiosas, principalmente as orientais. No ocidente, a teoria da reencarnação é amplamente divulgada pelo Espiritismo. Para compreender a pluralidade das existências é necessário crer na imortalidade da alma.

Segundo a Doutrina Espírita, a pluralidade das existências é a prova da misericórdia divina. Somente através da reencarnação temos a oportunidade de progredir moralmente, corrigindo nossas imperfeições e aperfeiçoando nossas qualidades. A reencarnação constitui, pois, uma Lei natural.

A passagem dos Espíritos pela carne é assim justificada pelo Espiritismo:


132. Qual é a finalidade da encarnação dos Espíritos?

— Deus a impõe com o fim de levá-los à perfeição: para uns, é uma expiação; para outros, uma missão. Mas, para chegar a essa perfeição, eles devem sofrer todas as vicissitudes da existência corpórea; nisto é que está a expiação. A encarnação tem ainda outra finalidade, que é a de pôr o Espírito em condições de enfrentar a sua parte na obra da Criação. É para executá-la que ele toma um aparelho em cada mundo, em harmonia com a matéria essencial do mesmo, a fim de nele cumprir, daquele ponto de vista, as ordens de Deus. E dessa maneira, concorrendo para a obra geral, também progredir. (O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec.)

A reencarnação não partiu do Espiritismo

A doutrina das vidas sucessivas, também chamada de Palingenesia, do grego Palin (novo) e gênese (nascimento), relaciona-se com a história das antigas civilizações. Os primeiros registros acerca da reencarnação partem dos hindus 5.000 anos a.C. Um pouco mais tarde, os egípcios também fizeram anotações sobre o tema: “Antes de nascer, a criança já viveu e a morte não é o fim”. (Papiro egípcio, 3.000 a.C.)

Os grandes pensadores, precursores do Espiritismo e da ideia cristã, discutiram amplamente a questão em suas escolas filosóficas. Pitágoras dizia ser a reencarnação de Euforbo, filho de Panto, que foi morto por Menelau na Guerra de Troia:


"A alma nunca morre, mas recomeça uma nova vida, muda de domicílio, tomando uma outra forma. Quanto a mim, já fui Euforbes, no tempo da guerra de Troia e lembro-me perfeitamente bem do meu nome e dos meus pais, bem como fui morto em combate com o rei de Esparta... Mas embora vivendo em vários corpos, a alma é sempre a mesma, pois só muda a forma.” (Pitágoras 572 - 492 a.C.)

Sócrates, considerado por muitos o maior filósofo do mundo ocidental, também expressou seu pensamento em relação ao assunto. Apesar de não deixar nenhum documento registrado, seus ensinamentos foram anotados e imortalizados por seus discípulos: “Estou convencido de que vivemos novamente e que os vivos emergem dos que morreram e que as almas dos que morreram estão vivas”. (Sócrates, 469 - 399 a.C.)

Platão, que fora fortemente influenciado por Sócrates e Pitágoras, tornou-se o grande divulgador da doutrina da reencarnação. Seus registros são apontados por diversos teólogos para justificar o objeto em questão: "Ó tu, moço ou jovem que te julgas abandonado pelos deuses, saiba que, se te tornares pior, irás ter com as piores almas, ou se melhor, irás se juntar às melhores almas, e em toda sucessão de vida e morte farás e sofrerás o que um igual pode merecidamente sofrer nas mãos de iguais. É esta a justiça dos céus". "Aprender é recordar." (Platão, 427 - 347 a.C.)

A reencarnação como dogma judeu

Em Israel existiam duas escolas filosóficas que dominavam a classe espiritual da época, os fariseus e os saduceus. A primeira, formada por representantes de classe média, era mais flexível e acreditava na reencarnação, mas utilizava o termo ressurreição para designar a ideia do retorno da alma à vida física. "Eles [os fariseus] também acreditavam que as almas tinham uma força imortal dentro delas e que sob a terra elas serão premiadas ou punidas, segundo elas tivessem vivido virtuosamente ou em vício esta vida; e estas últimas são mantidas numa prisão eterna, ao passo que as primeiras terão o poder de viver novamente." (Flávio Josefo - Antiguidades)

Já os saduceus, em menor número, eram representados pela alta sociedade. Seus membros eram conservadores e não acreditavam, de forma alguma, na imortalidade da alma e por consequência na reencarnação.

Mas por que mencionar aqui as crenças judaicas?

A resposta é simples, Jesus era judeu e antes de iniciar suas pregações provavelmente tenha recebido a mesma formação religiosa de seu povo. O Evangelho de Lucas nos conta que aos 12 anos Jesus viajou com os pais de Nazaré a Jerusalém para celebrar o Pessach, a Páscoa judaica; esse fato pode demonstrar o contato de Jesus com a religião judaica.

Jesus e a reencarnação

Muito se debate sobre os ensinamentos de Jesus. Cada religião enfatiza aquilo que melhor lhe convém, utilizando os registros bíblicos para fundamentar suas crenças. Partindo desse pressuposto, podemos citar algumas passagens bíblicas que podem ser relacionadas à doutrina da reencarnação.

Analisemos um trecho bíblico que referencia o diálogo entre o Nazareno e um doutor da lei judaica, Nicodemos: “Em verdade, em verdade vos digo que ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo. Perguntou-lhe, então, Nicodemos: Como pode nascer um homem já velho? Pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, para nascer segunda vez? Jesus respondeu: Em verdade, em verdade vos digo que aquele que não nascer da água e do espírito não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do espírito é espírito. Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo. O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; o mesmo se dá com todo aquele que é nascido do espírito”. (João, capítulo III, vv. 1 a 12.)

Nesse trecho, Jesus demonstra que é preciso nascer novamente para adentrar o reino de Deus, ou seja, para se chegar à perfeição. Este é o princípio da pluralidade das existências.

Outro segmento bíblico que nos fornece subsídios para confirmar a hipótese de que Jesus falava sobre reencarnação diz respeito à sua explicação aos apóstolos com relação a Elias e João Batista: “É verdade que Elias há de vir e restabelecer todas as coisas; mas eu vos declaro que Elias já veio e eles não o conheceram e o trataram como lhes aprouve. É assim que farão sofrer o Filho do Homem. Então, seus discípulos compreenderam que fora de João Batista que ele falara”. (Mateus, cap. XVII, vv. 10 a 13 e Marcos, cap. IX, vv. 11 a 13.)

Ora, aqui nos parece muito clara a ideia da transmigração da alma. Se João Batista era Elias, este fato só pode ser explicado pela reencarnação, pois João Batista e Elias foram duas pessoas distintas, com corpos físicos diferentes. Se a crença da doutrina da reencarnação fosse contrária aos ensinamentos de Jesus, certamente ele a teria combatido, como fez com tantas outras crenças conservadoras.

A reencarnação como crença do Cristianismo primitivo

Alguns estudiosos defendem que a teoria da reencarnação era aceita entre os cristãos primitivos. De fato, teólogos famosos e doutores da igreja como Orígenes, São Clemente, São Jerônimo e até mesmo Santo Agostinho explicitaram suas opiniões em favor da pluralidade das existências:



“Toda alma vem para este mundo fortalecida pelas vitórias ou enfraquecida pelas derrotas da sua vida anterior. Seu lugar neste mundo é determinado pelos seus méritos ou deméritos anteriores. Seu trabalho neste mundo determina o seu lugar no mundo que se seguirá após este.” (De Principiis e Contra Celsum - Orígenes)

"Não terei eu vivido em outro corpo, em alguma outra parte, antes de entrar no útero de minha mãe?" (Confissões - Santo Agostinho)

A proposta das vidas sucessivas teria resistido até o ano 553, quando o imperador Justiniano convocou o 2º Concílio de Constantinopla para combater as ideias de Orígenes, que eram adotadas pela Igreja.

Por que Justiniano interveio em uma questão religiosa?

Acredita-se que sua esposa, a imperatriz Teodora, antes de se casar, teria sido uma prostituta. Para que este fato não comprometesse sua reputação, Teodora determinou o assassinato de todas as prostitutas da região, aproximadamente quinhentas. Esse fato causou muita revolta nos cristãos que eram reencarnacionistas; eles a acusaram de assassinato. Muitos passaram a comentar que Teodora teria de retornar à vida quinhentas vezes para pagar pelos crimes cometidos. A imperatriz, por sua vez, passou a odiar a doutrina da reencarnação e, por isso, solicitou ao marido que tomasse uma atitude com relação ao fato. O imperador, que havia iniciado uma perseguição a Orígenes desde o ano de 543, organizou o concílio e ordenou de forma autoritária que qualquer ideia relacionada à reencarnação fosse banida do Cristianismo.

A realização desse concílio não contou com a presença de todos os bispos. Os representantes de Roma e a grande maioria do bispado ocidental não participaram da assembleia. Desse modo, Justiniano conseguiu facilmente a aprovação de seus interesses. Os participantes do concílio resolveram, portanto, substituir a crença na reencarnação pela crença na ressurreição. A decisão final do 2º Concílio de Constantinopla que diz respeito ao assunto é a seguinte: “Quem sustentar a mítica crença na preexistência da alma e a opinião, consequentemente estranha, de sua volta, seja anátema”.

Esta decisão reflete até hoje na doutrina cristã. O governo de Justiniano mudou o rumo do Cristianismo de forma significativa. A Igreja de Roma alterou o discurso e acabou por influenciar as doutrinas protestantes.

Por esse motivo, a espiritualidade maior trabalha para fortalecer o Espiritismo, que surge com a proposta de resgatar o Cristianismo primitivo.

A reencarnação aos olhos da ciência

Existem diversas pesquisas científicas sobre reencarnação em todo o mundo, inclusive no Brasil. Um dos maiores e mais complexos estudos realizados até agora fora sediado na Universidade de Virgínia nos Estados Unidos. Um grupo de pesquisadores, inicialmente liderado pelo psiquiatra Ian Stevenson, que morreu em 2007, estuda há décadas os casos em que pessoas dizem recordar suas vidas pregressas. Dr. Stevenson passou 37 anos registrando e analisando testemunhos de crianças que alegavam ter lembranças nítidas de outras vidas. Alguns registros, de fato, impressionam.

Crianças que desde muito cedo despertam talentos inatos para diversos campos do conhecimento são consideradas um mistério aos olhos da ciência. Pequenos gênios como Mozart, que compôs sua primeira canção aos 5 anos de idade, e tantos outros exemplos de miúdos com conhecimento incomum, ainda permanecem inexplicáveis.

Não seria mais justo admitir que exista um conhecimento anterior que possa justificar esses talentos? Como crianças que nem foram alfabetizadas desenvolvem complexas habilidades em diferentes áreas, lembrando-se de situações alheias à presente existência?

Foram essas observações que instigaram as pesquisas de Dr. Stevenson, as quais resultaram na publicação de materiais científicos e alguns livros sobre o tema. Parte da comunidade científica, entretanto, não vê com bons olhos a possibilidade da comprovação científica da reencarnação. A justificativa é que os estudos sobre o tema são geralmente baseados em evidências narradas, relatos de pessoas e comparações. A dificuldade em levantar provas concretas é muito grande, pois comumente existem intervalos consideráveis entre uma reencarnação e outra. Não existiria, segundo tal ideia, nada "palpável".

Outro problema encontrado e citado muitas vezes pelo Dr. Stevenson é que seus colegas cientistas acreditam nas teorias materialistas como verdades absolutas e não estão abertos a novas possibilidades de estudo. "Se ainda existisse tribunal de inquisição, certamente os cientistas que se dedicam a esse tipo de pesquisa, seriam queimados na fogueira por heresia." (Ian Stevenson)

É importante lembrar que Galileu também foi rechaçado por sustentar a ideia de Copérnico de que os corpos celestes giravam em torno do sol. O mesmo acontece hoje com tantos outros assuntos; a reencarnação é apenas um deles. A diferença é que hoje ninguém está condenado à morte por defender suas opiniões, como na época de Galileu.

Apesar de todas as dificuldades, Dr. Stevenson conseguiu despertar o interesse de boa parte dos cientistas para o assunto. As pesquisas prosseguem e a cada dia crescem as expectativas para a comprovação científica da pluralidade das existências, apesar de que, para alguns, as evidências são irrefutáveis.



Referências:

A Reencarnação no Evangelho - Hugo Alvarenga Novaes

Cristianismo e Espiritismo - Léon Denis

O Evangelho segundo O Espiritismo - Allan Kardec

O Livro dos Espíritos - Allan Kardec

Twenty Cases Suggestive of Reincarnation - American Society For Psychical Research. Versão Em Português, da Editora Difusora Cultural.



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