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sábado, 4 de janeiro de 2014

MÃES CONTAM COMO FAZEM PARA ENCARAR A DOR DA MORTE DOS FILHOS, VÍTIMAS DE ASSASSINOS EM BH:


Jefferson da Fonseca Coutinho - Estado de Minas


Madson Vargas - 1º/6/2003 - Na Savassi, na tentativa de ajudar uma vítima de assalto, o técnico em espetáculos foi morto com tiro nas costas
Na noite de quarta-feira, no Bairro Cidade Nova, Região Nordeste, um tiro na nuca selou o futuro da promissora relações-públicas Bárbara Neves, de 22 anos, aluna da PUC Minas. O crime causou comoção e revolta em diversos cantos da cidade. Babi, como era docemente chamada a filha de Gustavo Andrade e Tânia Quaresma, ambos na dor que não se cura, engrossa as estatísticas que indicam a escalada preocupante da violência em Belo Horizonte. Em 2011, foram 762 homicídios na capital mineira. A polícia procura dois suspeitos de matar a estudante (leia mais abaixo). Enquanto isso, Nilce Cançado, Jocélia Brandão e Heloísa Duarte, três mães que também perderam seus filhos assassinados, recolhem cacos para falar ao Estado de Minas de força construída para conviver com o insuperável.





A conversa é por demais delicada. Não é fácil para três mulheres de coração ferido desfiar a linha do tempo, abrir o baú de infelicidades e falar sobre o dia mais triste de uma existência. Em poucas horas de conversa, percebe-se, e é de encher os olhos até do mais frio ouvinte, a respiração da saudade, o suspiro da dor e o riso das boas lembranças. Jocélia, mãe da pequena Míriam Brandão, vítima, aos 5 anos, de crime que estarreceu o Brasil em 1992, não dá conta de segurar as lágrimas para dizer que gostaria de ter a filha nos braços por mais um minuto que fosse. Dona Nilce, de 74, forte, se sobrepõe à tristeza e, orgulhosa, sorri as lembranças da formatura do filho Ricardo Noce Lopes Cançado, morto por dois tiros na madrugada de 25 de agosto de 1988, em frente a boate Tom Marrom. Já Heloisa Duarte, atriz que ficou conhecida por perdoar em rede nacional, em 2003, o assassino do filho Madson Vargas Loçasso, transfere a maior infelicidade ao criminoso. “Infeliz é aquele que comete essa ação”, afirma.



Jocélia Maria Castro Leão, mãe de Miriam Brandão


Dona Nilce, de fala suave, acolhedora, diz lamentar profundamente não saber o que motivou a morte do filho Ricardo, com 20 anos e “um futuro brilhante”. Despista a tristeza e é só elogios ao moço, estudante dos mais populares nos tempos de colégio e universidade: “Um excelente aluno, muito querido sempre. Foi presidente do grêmio do Pitágoras por muitos anos. Um belíssimo filho. Só tenho boas lembranças dele”. Conta que Ricardo, mesmo já cursando administração na Fumec, foi homenageado com carinho pelo tradicional colégio da Região da Pampulha, que reuniu colegas, professores e funcionários, todos muito comovidos com o crime. Pausa para retomar a força: “É uma passagem muito triste na vida da gente”. Nilce estava em São Paulo, acompanhando o marido na recuperação de uma intervenção cirúrgica no coração, quando soube da morte do filho, em 1988. “Voltamos às pressas. Uma médica nos acompanhou na viagem. Quando chegamos ele já estava sendo velado no Cemitério Parque da Colina.” Naquele momento, mãe, pai e duas irmãs se viram sem chão. “A sensação é que a gente estava fora da realidade”, diz.



Míriam Brandão - 22/12/1992 - Filha da socióloga Jocélia Brandão, a garota, aos 5 anos, foi sequestrada, assassinada e queimada
Quatro anos distantes dali, em 1992, uma mãe recolheria os restos mortais da filha de 5 anos, sequestrada, assassinada, esquartejada e queimada. Jocélia, que desde então abraçou luta pela paz, diz sentir-se impotente ao saber de casos como o da estudante Bárbara Neves. “Quando vejo esses assassinatos, as drogas tomando conta de tantas famílias, o desespero de tantos jovens envolvidos com a violência, fico muito entristecida, desesperançada. Vemos pessoas perdendo a vida por nada, por um par de tênis às vezes”, lamenta. No entanto, fortalecida pela fé e pelo tempo que acolhem, a socióloga diz buscar estímulo permanente para continuar. “Não posso me entregar. Quando falo ‘eu’ é porque é um sentimento muito pessoal mesmo. Por tudo que vivi”, ressalta. Missionária, mãe coragem, Jocélia vê na família a presença de Deus, com quem esteve rompida por um tempo. “Uma dor assim nos faz passar por várias etapas. Num primeiro momento, perdemos a fé em Deus, a fé no ser humano. Depois, a vida nos chama para fazer alguma coisa. Senti força para tirar a cabeça do travesseiro e tentar fazer alguma coisa pelo outro”, conta.

Fé renovada também no coração de mãe da atriz Heloísa Duarte, voluntária em fundação espírita no atendimento de quem precisa. Na primeira madrugada de junho de 2003, na Savassi, Região Centro-Sul de Belo Horizonte, aos 27 anos, o técnico em espetáculos Madson Vargas, filho único e parceiro de Heloísa, em ação para impedir assalto sucumbiu ao disparo de arma de fogo. Como dar conta de ver a vida ao avesso? “Com amor. A fórmula é o amor. Sempre. É preciso colocar Deus acima de tudo.” Para a atriz é importante trabalhar o tempo e o perdão no peito pela paz de espírito. “Trabalhar o sentimento pelo próximo, compreender o tempo do outro e caminhar em frente”, orienta. No depoimento, nem o ritmo mais sóbrio das palavras e os sentidos mais trabalhados dão conta de ofuscar a saudade. “Não guardo ódio. Tenho muita tristeza. É muito difícil. Sinto muita falta, muita saudade, mas ódio não tenho”, emociona-se.



Ricardo Noce - 25/8/1988 - Estudante de administração, morto aos 20 anos em frente à boate Tom Marrom, no Bairro Funcionários
Na turma de formandos de 1987, Ricardo Noce foi orador. Fato revivido com muita alegria por dona Nilce, voluntária há tempos na creche São Francisco de Assis. “Eu não sabia e, no final, quando ele recebeu uma placa e o carinho de todos os colegas, vivi uma emoção muito grande. Não esqueço”, orgulha-se. Para os pais da menina Bárbara Neves, uma mensagem de carinho: “A gente não esquece nunca. A presença é constante, mas a lembrança ruim passa”. No domingo, dia 27, a pequena Miriam Brandão completaria 25 anos. Mais um dia difícil para Jocélia, que considera algumas datas do ano seus piores espinhos. “Não sei explicar. Aniversário, Natal, chego a sentir dores físicas. Tenho minha filha especialmente no Dia das Crianças, porque para mim ela vai ser eternamente uma garotinha que eu via correr e brincar pela casa”, diz desabando em lágrimas. “É um sentimento muito forte. Ao mesmo tempo da tristeza, da saudade, sinto também uma alegria imensa em ter certeza de que minha filha sabe o quanto foi amada.”

Enquanto isso, dois suspeitos são indiciados

O delegado da Homicídios Nordeste, Rodrigo Bossi, indiciou por latrocínio (roubo seguido de morte) os dois suspeitos de matar a estudante universitária Bárbara Quaresma Andrade Neves, de 22 anos, que levou um tiro na nuca na noite de quarta-feira no Bairro Cidade Nova, Região Nordeste de Belo Horizonte. O delegado também pediu a prisão temporária deles à Justiça e aguarda a Vara de Inquéritos se manifestar. Thiago Henrique Fernandes dos Santos, conhecido como Terror, de 21, e Wagner Henrique Soares da Conceição, de 20, suposto autor do disparo, estão foragidos. “O inquérito está parcialmente concluído e o indiciamento serve para garantir aos dois os direitos constitucionais, como o de terem direito à defesa”, disse o delegado, que tenta identificar um terceiro envolvido e localizar o Stilo prata usado por eles. (Pedro Ferreira)


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