Páginas

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

30 DE JANEIRO - DIA DA SAUDADE!!!




SAUDADE É O AMOR QUE FICA!

A palavra Saudade traz em si, diversos significados que podem ser interpretados de acordo com o contexto onde é aplicado. Sua origem encontra-se no Latim, Solitate, e se pesquisada, descobriremos que a conotação contemporânea distanciou-se da original. Saudade não mais se refere ao sentimento de solidão preservado em variações de línguas românicas como o espanhol: soledad e soledat.

Sobre a saudade, podemos encontrar definições como "Sentimento mais ou menos melancólico de ausência, ligado pela memória à situações de privação da presença de alguém ou de algo, de afastamento de um lugar ou de uma coisa, ou à ausência de certas experiências e determinados prazeres já vividos e considerados pela pessoa em causa como um bem desejável"; ou "Lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoa ou coisa distante ou extinta. Pesar pela ausência de alguém que nos é querido". Como sinônimos, encontramos Lembrança e Nostalgia.

Em 30 de janeiro celebra-se o "Dia da Saudade". Na gramática Saudade é substantivo abstrato, tão abstrato que só existe na língua portuguesa. Os outros idiomas têm dificuldade em traduzi-la ou atribuir-lhe um significado preciso: Te extraño (castelhano), J'ai regret (francês) e Ich vermisse dish (alemão).

No idioma inglês encontramos várias tentativas: homesickness (equivalente a saudade de casa ou do país), longing e to miss (sentir falta de uma pessoa), e nostalgia (nostalgia do passado, da infância). Mas todas essas expressões estrangeiras não definem o que sentimos.

São apenas tentativas de determinar esse sentimento que nós mesmos não sabemos exatamente o que é. Não é só um obstáculo ou uma incompatibilidade da linguagem, mas é principalmente uma característica cultural daqueles que falam a língua portuguesa.

Saudade não tem cor, mas pode ter cheiro. Não podemos ver nem tocar, mas sabemos o quanto é grande. Pode ser o sentimento que alimenta um relacionamento amoroso ou apenas o que sobra dele. Pode ser uma ausência suave ou um tipo de solidão. Pode ser uma recordação daquele momento e daquela pessoa, que um dia, mesmo sabendo ser impossível, ousamos querer reviver e rever. É a dor de quem encontrou e nunca mais encontrará, de quem sentiu e nunca mais voltará a sentir. A saudade se combina com outros sentimentos e procria-se. A soma da saudade com a solidão é igual a Dor. O resultado da saudade com a Esperança é a Motivação.

Saudade é uma só, em diferentes palavras. É comum encontrá-la grafada nas lápides em alusão a dor da ausência provocada pela morte. Mas na Literatura e na Música é um tema crônico. É quem arquiteta a estrofe e conduz o tom. Não importa o gênero literário ou o estilo musical, não importa o autor, a época ou a situação.

Casimiro de Abreu versificou sua saudade da infância: "Oh! que saudades que eu tenho / Da aurora da minha vida / Da minha infância querida / Que os anos não trazem mais!". Álvares de Azevedo antecipou a saudade mortal: "Se eu morresse amanhã, viria ao menos / Fechar meus olhos minha triste irmã / Minha mãe de saudades morreria / Se eu morresse amanhã!". A poetisa portuguesa, Florbela Espanca, também registrou sua saudade: "E a esta hora tudo em mim revive / Saudades de saudades que não tenho... / Sonhos que são os sonhos dos que eu tive...".

O Rock brasileiro transformou a saudade numa de suas bandeiras. Renato Russo cantou: "nessa saudade que eu sinto / De tudo que eu ainda não vi". Ainda nas canções de Renato: "dos nossos planos é que tenho mais saudade". Entre o Rock e a MPB, Cazuza, declarou: "Saudade do que nunca vai voltar / E dos amigos que se foram / Eu hoje estou com saudade". Tom Jobim e Vinícius de Moraes compuseram: "Chega de saudade / A realidade é que sem ela não há paz...".

Saudade é um registro fiel do passado. É a prova incontestável de tudo que vivemos e ficou impresso na alma. Ao confessarmos uma saudade, na verdade, estamos nos vangloriando de que, ao menos uma vez na vida, conhecemos pessoas e vivemos situações que foram boas, e serão eternas em nossa alma. Nutri-la, é alimentar o espírito e a própria existência.

Se há tantas e, ao mesmo tempo, tão imprecisas definições de saudade, resta-nos apenas cultivá-la e alimentá-la com pensamentos, músicas, perfumes, fotografias, lugares, fins de tarde e madrugadas. Saibamos viver plenamente o presente, pois ele será a saudosa lembrança de amanhã.

ORIGEM DE SAUDADE

Foram criadas tantas comemorações, tantos dias e homenagens, só não foi criado até agora o "dia da saudade". Estamos devendo essa à nossa língua, pois só nela pode ser expresso este sentimento e, segundo Bastos Tigre, nas suas trovas, por "ela valeu a pena inventar-se o português".

Pode-se refutar o argumento dizendo que em outras línguas pode-se expressar o mesmo com outra forma como "I miss you", "tengo nostalgias de usted", "je languis de toi". Mas nenhuma tem o mesmo conteúdo semântico de tristeza e vontade de rever, resumido em uma única palavra que pode ser assim definida: "Saudade não é lembrança, nem mesmo recordação, saudade é a dor da ausência, maltratando o coração".

Também pode ser dito que o Dia de Finados já é uma data da saudade, mas nós não temos saudades apenas de quem partiu para sempre. Temos saudades até de nós mesmos, das faces que perdemos nos vários espelhos que refletiram nossa imagem e, às vezes, temos saudade e não sabemos nem de quê, como dizem os versos: "Eu hoje estou com saudade não sei ao certo de quê. de um dia de claridade, de um carinho de verdade, de ouvir a voz de você/ Eu sinto uma falta louca de um sonho bom que morreu, da alegria que foi pouca... de um olhar que não se vê... pois não há maior saudade que essa estranha ansiedade não sei ao certo de quê".

Fernando Pessoa tomou-a como mote constante, sentimento emblemático de seu povo: "Saudades, só portugueses/ Conseguem senti-las bem/ Porque têm essa palavra/Para dizer que as têm".
Porém, não são apenas os portugueses, e sim todos aqueles que usam a língua portuguesa, que com o termo exprimem o sofrido sentimento. A vida vai tecendo laços e tudo que tece são pedaços do vir-a-ser que se transforma em ser. Assim, a saudade aportou no Brasil com a colonização e, sendo o Recife um dos primeiros, senão o primeiro porto a ser tocado na rota, ela aqui aportou e fez sua morada em nosso Pernambuco.

Na nossa poesia, ela é dominante, ora representada pela "cotovia" em Bandeira, saudade da terra natal e da perdida alegria da infância, ora representada pela "noite de São João", junto com os entes queridos que estão "dormindo profundamente".

Olegário Mariano, ligando-a ao "amor" na encruzilhada do "Destino", diz que "ela veio ao mundo para ser boa e dar o seu sangue a quem a queira". Outros dizem ser "parte de nós que alguém leva, parte de alguém que nos fica". O sábio e saudoso Luiz Gonzaga avisava que a saudade é boa quando "a gente lembra só por lembrar, porém se vive a sonhar com alguém que se deseja rever, saudade aí é ruim", e eu digo isso por mim. É também, paradoxalmente, um dos temas recorrentes no tempo da folia, nas letras do frevo canção e de bloco - "a dor de uma saudade vive sempre no meu coração" -, a cantar as saudades do amor perdido ou da terra natal. Os versos emocionam lembrando que "a saudade é tão grande que até me embaraço ou ainda que é tão grande a saudade que até parece verdade que o tempo ainda pode voltar".

Grande ilusão! De etimologia incerta, as formas arcaicas primeiras foram "suidade, soedade e soidade", na fase do galego-português. Teria vindo assim de "soledade", solidão. Também foi levantada a hipótese de vir de "salutate", uma saudação bastante usada nas despedidas das cartas romanas. Até a influência de "saúde" já foi aventada. A dificuldade de explicar a mudança fonética fez João Ribeiro opinar que saudade tem origem no árabe "saudá", profunda tristeza. A outra hipótese (meio fantasiosa) é ter derivado de "Ceudda", forma bérbere de dizer Ceuta, fortaleza distante onde os soldados passavam longo tempo ausentes da terra natal.

O que fica, na verdade, é que com esta palavra, marca-se um estado de espírito que outras línguas não exprimem com precisão, sentimento muito próprio dos que usam o português como língua materna.

Porém, como diz o poeta, "uma coisa é cantá-la e outra coisa é senti-la". Bem que a saudade mereceria um dia para ser comemorada, entre nós, falantes do português, seus eternos cantores e cultores. Mas, enquanto esse dia improvável não vem, cada um escolha seu dia pessoal e intransferível, para comemorar todas as saudades que sentiu, sente e carrega consigo pela vida afora, seja ela longa ou ainda curta.

Seguidores