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sábado, 26 de abril de 2014

ANTE A DOR E A MORTE....


Já teve um amigo especial? Não um amigo do peito, desses que você vê todos os dias, que está sempre junto.

Nada disso, me refiro a um amigo especial.

Um que você traz na lembrança, e que todas as vezes que faz um balanço da sua vida, ele invariavelmente aparece: quando você lembra daquela fase difícil, ou das boas risadas, ou das coisas que ele te ensinou.



O tipo de amigo que você carrega na alma, mesmo que passem anos sem se ver, ou sem se falar. Do tipo que você acha o mundo melhor, só porque sabe que ele está lá, seguindo com a vida, e sendo feliz.

A vida me brindou com vários amigos assim; desde a infância, com a babá que chamávamos de mãe, e com a “avó ideal”, depois na adolescência com as “amigas inseparáveis” e mais tarde, na fase adulta, com alguns anjos que Deus colocou no meu caminho, pra aliviar um pouco a minha barra.

Hoje tive notícias de um desses amigos. Soube, pelo Orkut, que ele está perdendo a visão, por causa do diabetes. Não telefonei pra quem postou a mensagem, para saber os detalhes. Eu não quero saber os detalhes.
POR QUE COISAS RUINS ACONTECEM A PESSOAS BOAS?

O primeiro pensamento que vem à mente da maioria das pessoas, ao receber uma notícia como esta, é “Por quê?” Ou então, “por que justo com fulano? Ele não merece!"

Que visão tosca, a nossa, dizer quem merece o quê...

Esse pensamento reflete nossa compreensão limitada da finalidade da existência terrestre. Como espíritos milenares, não concluímos nossa jornada em uma única existência, nem a deterioração do corpo implica em falência da alma.

Estamos todos numa viagem ascendente, passando por experiências necessárias ao nosso adiantamento moral e espiritual. O corpo, para o espírito, é uma veste transitória, um instrumento do qual se serve para enfrentar as lutas eos aprendizados inerentes à condição humana. O que nos escapa à compreensão, muitas vezes, é que as limitações da carne são um convite à transcendência da alma. Não podemos ficar estagnados, presos à aparente impossibilidade de avanços e realizações. O que é perecível, é o corpo. E quanto mais debilitado fica, mais a alma pode se libertar, mesmo em vida.

Ainda assim, a idéia da dor incomoda. E incomoda tanto, apenas porque ainda não aprendemos que ela deve ser interpretada de maneira inversa; não como castigo, punição, mas como remédio, renovação, libertação do velho. Como transcendência.

Se Deus permite a dor, é porque ela tem uma finalidade útil. Sendo justo e misericordioso, Deus não iria imputar penas e sofrimentos a quem não pudesse deles se beneficiar.

No livro O Consolador, o item que fala da dor está no capítulo intitulado “Evolução”. E, através da psicografia de Chico Xavier, Emmanuel diz, quando perguntado qual o maior auxílio para a nossa redenção espiritual:

“No trabalho de nossa redenção individual ou coletiva, a dor é sempre o elemento amigo e indispensável. E a redenção de um Espírito encarnado, na Terra, consiste no resgate de todas as suas dívidas, com a conseqüente aquisição de valores morais passíveis de serem conquistados nas lutas planetárias, situação essa que eleva a personalidade espiritual a novos e mais sublimes horizontes da vida no Infinito”.

Estamos acostumados a considerar tudo o que nos acontece de ruim – ou difícil – como castigo. Mas temos que aprender a substituir a idéia de “castigo”, pela de “redenção”.
O CARMA

A palavra carma, é difundida na cultura espírita como “efeito da lei de ação e reação”. Mas sua interpretação é errônea, quando nos apressamos em apontar que, quem sofre hoje é porque está pagando por males que teria infringido a outrem, no passado.

Herculano Pires chama essa nossa interpretação de “conceito antropomórfico da dor”. Em seu livro O Mistério do Ser Ante a Dor e a Morte, Herculano diz que estamos, ainda, muito impregnados de uma idéia antropomórfica de Deus, e por isso entendemos a dor como “castigo de Deus, resultante do pecado, seja como problema de consciência ou como resultante cármica, proveniente de ações maléficas em vidas anteriores, ou remorsos decorrentes dessas mesmas ações na vida presente.”

“Por influência do antropomorfismo”, continua Herculano, “desenvolveu-se no meio doutrinário espírita a idéia restritiva de que todo aleijão ou situação anômala é de natureza cármica. Não obstante, o próprio Kardec adverte que muitos desses transtornos ocorrem por causa das imperfeições da matéria densa, de que se constitui o nosso mundo.”

Herculano explica que temos uma programação cármica, mas temos também o livre arbítrio, e “acima dos objetivos de resgate (carma), existe o interesse básico de aprendizado e desenvolvimento de potencialidades”.
VIVER BEM PARA MORRER EM PAZ

Ninguém deseja a morte de ninguém, muito menos de alguém a quem se quer bem. A minha “avó ideal” passou por um período prolongado de doença, antes de desencarnar. E eu orei muito, e pedi a Deus não pelo seu corpo físico, perecível, passageiro, transitório, mas pedi por sua libertação. A morte é libertação. É mudança de casa – pra uma casa melhor. Assim é para os que bem viveram.

Em Educação para a Morte, Herculano Pires diz que “o homem terreno sempre se apegou, principalmente nas civilizações ocidentais, ao conceito negativo da morte como frustração total de todas as possibilidades humanas”. Mas, ao morrer na terra, um horizonte de infinitas possibilidades se descortina com clareza diante do espírito eterno. O espírito “continua a viver com mais liberdade e maiores possibilidades de realizações, certamente inconcebíveis aos que ficam no plano terreno”.

O que nos aprisiona é a veste carnal. Diz Herculano que “se, no plano espiritual, a posição assumida pelos espíritos fosse a mesma dos homens, seríamos considerados como “espíritos mortos”. Porque o espírito que se encarna na Terra, afastando-se da realidade viva do espírito, é praticamente “sepultado” na carne.”
O MEDO DA MORTE

O medo da morte é o medo do desconhecido. E talvez porque intuímos que, como espíritos, do outro lado da vida, nos defrontaremos com quem realmente somos. Sem a veste do corpo, sem o escudo das aparências, a morte é o nosso encontro com o nosso íntimo.

Diz Emmanuel que “a morte é campo de sequência, sem ser fonte milagrosa. Aqui ou além, o homem é fruto de si mesmo.”

Daí a serenidade inabalável dos que bem viveram. Devemos, então, viver de maneira a que o nosso encontro com a morte seja um feliz regresso à verdadeira pátria. E ficar com as malas prontas, sem deixar para depois ou outorgar a terceiros a nossa quota de trabalho e de suor, de aprendizado e de sublimação.
“A OBEDIÊNCIA É O CONSENTIMENTO DA RAZÃO.
A RESIGNAÇÃO É O CONSENTIMENTO DO CORAÇÃO”.

O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap.IX, Bem Aventurados os Mansos e Pacíficos

Aprendemos que Deus é bom, misericordioso, justo, onipresente e onisciente. Deus é Amor. E se é Amor, não castiga, nem se compraz com nosso sofrimento. Diz André Luiz, em Nosso Lar, que “Deus não precisa de nossas lágrimas, mas nossas lágrimas fazem muito bem a nós mesmos”.

Mas o sofrimento ante a possibilidade da morte, tanto para quem vai quanto para quem fica, é decorrente de uma visão limitada, circunscrita ao tempo e ao espaço de uma única encarnação. É decorrente da nossa incompreensão da finalidade da dor depuradora, necessária, mas nem sempre imposta; na maioria das vezes, a dor é a resposta de Deus aos apelos mais íntimos do espírito, ainda que o véu da vida material obscureça a sua lembrança e a percepção do porquê da dor.

Só se revolta ante a idéia da morte quem não tem fé no futuro e na misericórdia de Deus, que sendo Amor, não pode entregar seus filhos ao tormento eterno da separação irremediável, da dor sem cura, da culpa sem perdão.

Ainda que se aceitem essas Verdades no plano racional (obediência, como consentimento da razão) só quando entregamos a Deus nossos corações, aflições e angústias, é que nos sentiremos confortados e acalentados (resignação, o consentimento do coração). A fé no futuro nos traz a tão desejada paz, mesmo durante as tormentas que todos atravessamos na vida.

Por isso, mais do que a razão, nos serve o coração.
“PARA SEREM AMADAS, AS COISAS DA TERRA PRECISAM SER CONHECIDAS.
PARA SEREM CONHECIDAS, AS COISAS DO CÉU PRECISAM SER AMADAS”

Pascal

Ainda que não saibamos exatamente o que nos espera, trazemos a marca de Deus dentro de nós, no mais íntimo do nosso ser.

Por isso, quando nos defrontamos com situações como essas, para as quais não encontramos uma explicação, ou quando estamos cara a cara com o inexorável, deixemos que Deus se ocupe de nossas aflições. Entreguemos a Ele nossos anseios e angústias. Ele que tem o braço suave e o colo amigo, para nos acalentar, nos fortalecer e nos redimir. Deixemos que o Amor se ocupe dos nossos males, confiando mais nele e na Misericórdia de Deus, do que na falibilidade de nosso julgamento.
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por Liz Bittar
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Os artigos publicados na seção Reflexões, por Liz Bittar são, como o nome diz, minhas reflexões pessoais, e não constituem material doutrinário, nem refletem posicionamento oficial da doutrina espírita. Eles refletem, entretanto, o que eu assimilei da doutrina, e o impacto que esses ensinamentos têm na minha vida, em minhas escolhas pessoais, e na minha forma de ver o mundo.
Como material de consulta sobre o espiritismo, recomendo as obras de Allan Kardec e os mais de 500 livros de Chico Xavier. Os artigos desta seção são apenas reflexões pessoais, ou narrativas de experiências pelas quais passei.
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